Waldomiro Fernandes Filho

Ex-Gerente de Segurança e Saúde Ocupacional – Anglo American

Geral

O Programa “Global Mineral Industry Risk Management – GMIRM”, é pra mim o que se tem de melhor no que diz respeito a gerenciamento de segurança e gerenciamento de riscos. Quando se fala em gerenciamento de segurança e higiene ocupacional, temos que iniciar pelo risco, assim como o processo tem que ser vivo e portanto quaisquer aprendizado ou imputs deve-se aplicar o PDCA e rodar o sistema.

Lembro que no início do processo quando minha Diretora Juliana Hefheld me designou para ser o representante do Brasil junto com o Engenheiro de Minas, Bruno Pelli. A Anglo American possuía diversos acidentes fatais no mundo. A Anglo American se questionou onde se teria o melhor gerenciamento de segurança e riscos no mundo aplicado a Mineração. Na Austrália pra você ser um gerente nas indústrias da Mineração, você precisa ir ao governo e fazer o curso G3 que é um curso de gerenciamentos de riscos de uma semana presencial, além de trabalhos prévios a distância e tirar média 8 (Oito), caso contrário você não pode exercer cargos de gerência nas minas da Austrália. Esse curso é ministrado pela Universidade de Queensland, com a coordenação do Professor Jim Joy.

A Anglo American então, contratou o Professor Jim Joy para criar e desenvolver esse treinamento para os gerentes, na qual esse curso seria denominado A3. O processo também se desenvolveria e se desdobraria a outros cursos do mesmo segmento denominados A4 para CEOs e Diretores, A2 para liderança média e A1 para todos da força de trabalho. Eu tive a honra de ser o representante do Brasil para esse desenvolvimento, juntamente com o Engenheiro Bruno Pelli, além de representantes de outros países como Chile, África do Sul, Austrália, Irlanda do Norte, Namibia, Inglaterra, dentre outros.

O ponto importante desse desenvolvimento era como seria ministrado esses cursos. Foi então definido, em função dessa nova e moderna forma de se enxergar a prevenção, que esses treinamentos deveriam ser ministrados pelas Universidades. Alías, esse não é treinamento. Treinamento é quando temos que adquirir habilidade de se executar algo. Esse processo de gerenciamento de riscos SRMP, Safety Risk Managemnent Process, é um ativo. É uma mudança de cultura. É um ensinamento de um Valor que se incorpora dentro de cada um para preservação da vida.

Foi então, lembro detalhes desse dia em que a minha Diretora Juliana em reunião junto comigo, decidimos que a Universidade de São Paulo, onde o Professor Sergio Médici, possui a coordenação das graduações de Engenharia de Minas, Engenharia de segurança, Pós graduação Ambiental, além de Higiene Ocupacional, etc, seria a pessoa mais indicada nesse País para adquirir essa expertise, totalmente custeada pela Anglo American. No Brasil a Anglo American possuía as operações de níquel, nióbio, fosfatos e minério de ferro. Foram também convidadas pelas outras operações das comodities de platina, carvão, diamante, cobre, minério de ferro, zinco, dentro outras, as universidades de Nevada, Universidade do Arizona, Universidade Católica do Chile, Universidade de Pretória, Universidade de Cape Town, Universidade Beijing, etc para participação de modo a esses treinamentos fossem ministrados impreterivelmente dentro de ambientes universitário.

Fizemos muitas interações junto com o Professor Sergio Médici, pois diversos materiais foram previamente enviados pra nós para leitura e mudança de paradigma. Quando chegamos em Johanesburgo e Cape Town um bela cidade da África do Sul, antes das apresentações fomos surpreendido com uma prova sobre o material previamente enviado. Esse era o começo de tudo. Tivemos que esquecer um pouco nossa experiência e focar no novo material e entender essa nova proposta de jornada através do programa “Global Mineral Industry Risk Management – GMIRM”.

Tive uma exposição muito intensa nesse material e tive a oportunidade de implementar junto com empresas de consultoria que nos ajudaram a implantar o gerenciamento de riscos em camadas. As empresas DuPont e ABS Consulting. Veja que não contratamos as empresas para fazer o processo pra nós, foram construídos pelos nosso corpo de trabalho.

Tivemos muitas reuniões de planejamento para a efetivação nos diversos sites compreendendo minas, beneficiamentos, áreas químicas dentre outras nos municípios de Cubatão SP, Catalão GO, Ouvidor GO, Niquelândia GO, Barro Alto GO e Goiânia GO.

Eu realmente fui e sou um dos grandes incentivadores desse programa, desde a nossa definição da Universidade de São Paulo como nossa parceira nesse processo e ida à África do Sul até a implantação dessa experiência na aplicação desse programa na Copebras/Anglo American em Cubatão, Catalão e Ouvidor, onde fui o responsável direto na gerência corporativa de Fosfatos e Nióbio em parceria com o Prof. Sérgio, coordenador do LACASEMIN / POLI – USP e do programa GMIRM no Brasil.

Hoje já se passaram alguns anos e tenho a plena certeza, que salvamos diversas vidas com a implementação desse processo de aperfeiçoar uma cultura sustentável de segurança operacional, higiene ocupacional e de meio ambiente. Foi nítido diagnosticar nosso posicionamento em um estágio reativo, ou até cumpridor da legislação, porém muito distante de sermos pro ativos e longe de atingirmos nossa tão sonhada e almejada resiliência. Isso diagnosticado pelos gerentes, após a realização das diversas turmas de gerentes que participaram dos cursos dentro da Universidade.

Hoje transcorridos cerca de 8 anos da parceria com a Universidade de São Paulo, a minha visão do programa GMIRM é a pura realidade de uma grande evolução da nossa forma de se expressar sobre segurança. Hoje falamos de eventos indesejáveis, falamos de energias, falamos de condição perigosa, erro humano, sabemos a diferença entre Hazard e Danger, aplicamos ferramentas importantíssimas para criação da uma base de gerenciamento de riscos, com aplicação de ferramentas como a WRAC como uma primeira camada de desenvolvimento. A matriz de riscos 5x5 aplicada de uma maneira completa defini-se quais são esses maiores eventos indesejados e aplicamos uma segunda ferramenta BOW TIE, onde consequências são interrompidas por barreiras e fatores de degradação, além de controles implementados e controles críticos rigorosamente monitorados. O processo de mudança é um fator primordial nesse processo, onde o Professor Jim Joy falava o tempo todo “Changes are Killers”, mudança são assassinas. Todos esses controles devem obrigatoriamente descer para a terceira camada onde ocorrem as atividades e outra ferramenta JSA Job Safety Análises, ou AST Análise de Segurança da Tarefa deve ser implementada. O processo se completa com a parada de 5 minutos e reflita se possui todos os recursos para execução. Essa quarta camada é o último controle antes do início das atividades. Porém há de se considerar que esse processo somente se consolida se todos os níveis da organização estiverem com os treinamentos / cursos, que são a real mudança de cultura desse processo.

Posso afirmar que os indicadores de segurança tantos os reativos e os pro ativos, tiveram uma importantíssima melhora nos últimos anos. O fato importante além de todos processo descrito, no início com parte importante de construção braçal, foi a real mudança de cultura dos trabalhadores, além da consciência da alta administração. Após a conclusão do A3 e A4, tive a oportunidade de conversar com diversos gerentes e diretores e uma incrível mudança de mentalidade. Depois dos cursos os gerentes e diretores conhecem onde priorizam os recursos disponíveis. Tive oportunidade de conversar com supervisores que é a faixa de liderança mais próxima da força de trabalho. Ora quem são os supervisores, são trabalhadores que se destacaram na força de trabalho e receberam o cargo com chefia mas não foram preparados para serem líderes. Após o A2 esses profissionais sentiram na pele a grande importância que eles precisam ter, pois todos da força de trabalho estão diretamente dependente do planejamento dele. Já o pessoal da força de trabalho, onde é a visão de segurança ficou muito aguçada depois do A1 e controles ficam muito nítidos para manter níveis aceitáveis tão baixo for possível. Controles críticos estabelecidos que caibam na nossa mão. Se tivermos estabelecidos pelo menos cinco controles fáceis eles gravam. Aliás, o que você determinar pra eles com a liderança dando exemplo, tudo se concretiza. Hoje com os sistemas implementados as reduções de possibilidade de ocorrência de acidentes com potencial de fatalidades foram realmente, após os controles efetivos, reduzidos a níveis ALARP as low as reasanable practible, tão baixo quanto praticável e que nós realmente aceitamos. Tão seguro que eu colocaria meu filho para realizar essa tarefa.

Afirmo portanto, que o programa GMIRM contribuiu e contribui decisivamente para a melhoria significativa na sustentabilidade da cultura de segurança operacional e meio ambiente de uma empresa, pois, com o sistema de gerenciamento de riscos implementado, ou seja a Baseline definida com os eventos indesejados determinados com a WRAC, aplicação da matriz 5 por 5, aplicação da ferramenta BOW TIE para os maiores, a gestão de mudança implementada, todos os controles críticos determinados, o monitoramento dos controles críticos implantados, controles descendo para a terceira camada na ordem de atividades, bem como parando para análise antes do início com ferramenta da quarta camada, além dos diretores e gerências, liderança média e força de trabalho treinadas no processo em ambiente acadêmico e também as avalições de jornada determinando os gaps e plano de ação estabelecido com prioridades determinadas, posso afirmar que a jornada de segurança dessa organização, estará com uma pequena e muito pequena probabilidade de ocorrência de acidentes com alto potencial.

O custo / benefício da implantação do programa GMIRM é sem dúvida, para as empresas que possui “Segurança como Valor” uma relação de custo/benefício altamente compensador, pois trata-se de vidas. Se essa empresa quer que os empregados trabalhem em ambientes sadios e seguros, ganhem o pão de cada dia e retornem passa as suas residências para as suas famílias “inteiros”, esse investimento já se paga, e não quer ter eventos indesejados com grandes danos materiais, portanto esse programa é razoavelmente interessante.

Porém, todas as vezes que iniciei esse processo, tivemos grandes dificuldades de aprovações, devido a falta de planejamento das empresas. Toda empresa possui seu budget e esse investimento deve ser previstos nos orçamentos e diluídos em um determinado período. O valor em si do investimento a princípio é alto. Mas o que é alto? Quanto eu valho? Quanto vale uma vida? Um acidente é demais. Quando perdemos um vida o que fica nessa família? As “Ripple of Loss” ondas do sofrimento, que fica na família para o resto da vida, ninguém leva em consideração, pois são imensuráveis e muito facilmente esquecidas pela geradora disso. Sempre irei incentivar as organizações a implementarem, praticarem, viverem intensamente o programa GMIRM, pois é o que se tem de mais atual e eficiente sistema de gerenciamento de segurança, saúde ocupacional, higiene ocupacional e meio ambiente que se tem conhecimento no mundo. Esse programa foi criado por uma sumidade “professor Jim Joy, que eu tive a honra de trabalhar, onde tenho grande orgulho em pertencer, pois todos nós prevencionistas almejamos chegar um dia na “Resiliência” e somente conseguimos através da jornada proposta pelo programa GMIRM. Agora chegar é uma tarefa muito difícil, tem que querer alcançar e depois o mais difícil é se manter.

Prezado amigo Professor Sergio, você foi uma grande amizade que ganhei quando iniciamos esse processo juntos, saiba que tenho uma grande estima do seu trabalho, de suas aulas, de seus ensinamentos que são eternos. Obrigado pelo seu empenho e dedicação que você agarrou esse trabalho. Sempre presenciei seu brilho nos olhos ministrando diversas turmas do A3. Obrigado por citar meu nome em todas as novas aberturas de nova turmas desse processo. Apóio com todas as letras as organizações a mergulhar nesse processo que queiram implantar e se consolidar em um patamar de respeito ao ser humano a laborar em um ambiente saudável e sustentável de segurança operacional e meio ambiente.

Obrigado por me fazer responder essas quatro perguntas, pois me fez relembrar o processo mais importante da minha vida. Eu acredito e lutarei por isso, para todos voltarem pra casa após o pão de cada dia ganho após um suado dia de trabalho com total segurança.